Pressão que gera diamantes


Escrito em: 05/09/2016 por Anderson Dias

Escrevendo ao som de Under Pressure do Queen.

A Olimpíada Rio2016 foi marcante para minha família pois ganhamos entradas para as finais do vôlei e futebol masculino. Nunca acompanhei estes esportes mas admito que rapidamente entrei no clima olímpico.

Quem acompanhou a saga do vôlei ao longo da competição viu a luta de uma equipe para superar a alta pressão de ganhar o título dentro de casa. Enfim, depois de muita angústia, chegamos à final e vibramos com o tão desejado ouro.

Poderíamos falar do mérito daqueles que chegaram ao lugar mais alto do pódio, mas quero destacar o papel de Bernardinho, treinador da seleção, e de como sua liderança adaptativa trouxe a desejada vitória à Pátria Amada.

O efeito que a pressão pode causar depende muito da forma como lidamos com os problemas apresentados e o líder têm um papel definitivo para que se alcance um resultado positivo em meio à momentos difíceis.

Um seleção nova encara a pressão de um mundial

"Seleção brasileira vitoriosa"
Seleção brasileira de vôlei comemorando a vitória olímpica

Diferente das últimas participações nas Olimpiadas, o time brasileiro era composto por jogadores novos e pouco experientes em competições desta escala.

Imagine a pressão enfrentada pelos novatos: um país inteiro desejando a volta dos momentos de glória do vôlei brasileiro. Era uma torcida que ao mesmo tempo propelia e esmagava.

Ao término do decisivo jogo contra a França um repórter pergunta ao técnico se ele tinha assumido uma nova postura como treinador, já que estava mais calmo que o habitual. Segue sua resposta:

“Depois do segundo set, eu precisava mudar meu jeito de ser. É uma geração diferente. Preciso de todas as formas passar confiança para eles. Se eu colocasse pressão e tensão ali, ia estourar. Lucarelli começou errando tudo, pedi para ele respirar e concentrar. E ele melhorou durante a partida.”

Ao ouvir esta resposta foi impossível não perceber neste treinador a sua tremenda capacidade de liderança. Creio que podemos tirar algumas lições aqui:

Um bom líder sabe das capacidades de sua equipe e confia nela

Quem acompanhou esta partida percebeu que o jogador citado vinha errando vários lances ao longo da partida.

Lucarelli é um novato na seleção e, apesar de ter sido um jogador decisivo em todas as vitórias do time, não lida com os gritos de seu treinador tão bem como seus colegas de quadra mais antigos. Como disse Bernardinho “é uma geração diferente”.

Em nenhum momento o técnico pensou em retira-lo completamente do jogo. Ele sabia da capacidade de seu jogador e confiava que ele poderia retornar ao jogo e mostrar seu vôlei.

Ao primeiro sinal de algo estar fora do esperado continue acreditando na sua equipe, identifique como pode ajudar a manter a moral e se for necessário ajude-a a “respirar e concentrar”.

Um bom líder respeita os limites pessoais e age como um amortecedor da pressão externa

Sérgio era o capitão da seleção este ano. É um jogador que joga sob a liderança de Bernardinho há algum tempo. É da geração antiga. Ouviu os berros do treinador por muito tempo e aguenta esta pressão a mais.

Lucarelli não. Para ele bastava a pressão de um jogo decisivo. Essa pressão era o que ele suportava. Mais que isso e “ia estourar”.

Perceba a pressão externa e atue como um regulador para que chegue à sua equipe somente a pressão que cada um deles suporta. Se você percebe que é necessário coloque mais pressão sobre aqueles que vão crescer com ela, ou reduza sob aqueles que já estão no limite.

Um bom líder muda seu jeito de gerir de acordo com as circunstâncias

Precisamos nos moldar rapidamente para aplicar a pressão necessária para o bom desempenho individual no time. Mais que isso, um bom líder sempre se adapta.

“Eu precisava mudar meu jeito de ser”. As vezes o líder pode se tornar o problema, por isso precisamos sempre mudar nosso jeito.

Existe tempo de pressionar e tempo de relaxar. Ser flexível em seu modelo de gestão vai permitir um bom relacionamento com seu time e que você extraia o máximo deles, em qualquer circunstância.

"This is sparta!"
“Estamos chegando no fim do prazo! Vamos dar nossas vidas para que este projeto vá ao ar!”

Isto me remonta algo que aconteceu bem no início da minha carreira…

O Natal se aproximava e estávamos no limite do prazo de um projeto que precisava entrar no ar antes do fim de ano. O cliente estava muito preocupado com o timing da entrega e esta tensão recaia sobre a equipe por meio do gerente do projeto.

Eu estava bem acostumado com ele. Trabalhávamos juntos há mais de um ano e é um grande amigo. Ele podia gritar comigo nas reuniões e eu terminaria a conversa motivado para entregar mais e melhor.

Porém esta não era a realidade de toda a equipe. Entregamos o projeto às custas de uma parte do time estar desmotivado e quebrado.

Foi neste episódio que percebi que cada pessoa responde à pressão de forma totalmente diferente. Um pode sair animado, outro destruído.

A pressão na dose certa pode ser um agente de crescimento. Pode nos mover adiante. Líderes precisam ter a sensibilidade para extrair dela este potencial e não deixa-la afetar negativamente a moral e produtividade de um time.

"Ultimamente seu pai tem estado sob muita pressão"
“Ultimamente seu pai tem estado sob muita pressão”

O trabalho muitas vezes é cansativo, mas eu creio que a pressão pode ser um agente poderoso de mudança na nossa vida. Mudança para o bem, se usada da forma correta.

Pois somente com a pressão é possível gerar diamantes. Então, que ela gere diamantes felizes e motivados.